O correspondente da América nua e crua

(Adoro problemas é Michael Moore no auge!!!)

Eu adoro Michael Moore e não é de hoje. Ele é daqueles artistas que ao primeiro contato com o seu trabalho, você pensa: "eu preciso saber mais sobre esse indivíduo!". E mais: eu não me recordo de ter visto um documentarista tão cara-de-pau (e digo isso com a melhor das intenções) em toda a minha vida como cinéfilo. Moore invade a privacidade alheia com a maior facilidade e se precisar arrombar portas e cofres para atingir o objetivo a que se propõem os seus filmes, ele assim o fará.

Todavia, hoje eu quero falar de outro Michael Moore. No caso, o escritor. Sim, mr. Moore também escreve e extraordinariamente. E seus livros são sempre uma facada no estômago do leitor. Expõe a nu as mazelas dessa América que se diz grandiosa, mas é cheia de defeitos como qualquer país subdesenvolvida do terceiro mundo. Tem quem o chame de vez em quando de correspondente de guerra não-oficial e acredito que seus textos vão muito por esse caminho. Ele é o lado B dos Estados Unidos sem vergonha nenhuma de admitir.

Na era Bush ele ganhou bastante destaque com seus documentários Tiros em Columbine, Fahrenheit 11 de setembro e Sicko e de uns tempos para cá andou sumido. Estranhamente, é bom que se diga! Contudo, não perdeu a vontade de escrever suas ideias e acredito piamente que conseguiu seu maior feito literário até com aqui com o monumental livro de memórias Adoro problemas.

Primeiramente: encontrar esta pequena obra-prima escondida numa estante da Saraiva em meio à livros que nada traziam de relevante por uma bagatela que não chegava a 20 reais seria, para leitores menos ambiciosos, motivo suficiente para abandoná-lo ali mesmo, à própria sorte. Mas não eu, meus caros amigos, conhecedor profundo da ironia ácida de senhor flácido e de língua ferina. Peguei-o rapidamente, antes que outro leitor de verdade (eles aparecem quando a gente menos espera) desse as caras no recinto.

Em Adoro problemas Michael Moore revê 50 anos de política americana com um olhar contundente, mas sem perder o deboche. Na contracapa do livro há uma citação que define bem a tônica do livro: "um contestador desde a infância". Exato. Michael é aquele velho caso do homem a quem a sociedade não consegue calar, não importa o quanto tentem. E a maior prova disso é a maneira como abre seu testemunho, contando toda a saga após ganhar o Oscar por Tiros em Columbine: o ódio recebido depois de fazer duras críticas ao governo Bush, chamando-o de "presidente fictício", xingamentos, agressões no meio da rua, gente que inclusive invadiu a sua casa. E mesmo assim não se submeteu à vontade dos covardes, daqueles que exigiam dele um pedido de desculpas.

Eles, pobres coitados, não conhecem Michael Moore. Quando ele apura um fato, se você estiver envolvido pagará pago por isso. É só uma questão de tempo.

Do garoto que queria ser padre em Flint e acabou expulso da paróquia por questionar demais a tudo, à líder estudantil, dono de jornal (o único em sua cidade natal), visionário, filmmaker e, claro, oposicionista eterno do american way of life. Moore atravessa governos mantendo a língua afiada e peitando tudo e todos. Aponta as distorções daquela que se vende "como a maior nação que o mundo já viu" e não tem medo de entrar no cabo de guerra quando necessário para impor suas ideias.

Entre uma guerra particular e outra, amores não-concretizados, amizades de longa data, brigas juvenis por território, a relação de altos e baixos com a família (que, é bom que se diga, nunca entendeu 100% a cabeça do rapaz. E querem saber? Foi melhor assim. Do contrário, teríamos perdido um grande investigador), a luta para se manter relevante em meio a um país que se vende através de mentiras que são reescritas com uma regularidade cada dia maior... Em resumo: a saga de um furacão de proporções gigantescas, capaz de enfrentar qualquer inimigo que bloqueie o caminho da verdade.

E ele fará de tudo para que a verdade transpareça. Nas mínimas coisas. Nos mínimos gestos.

Eu já havia lido anteriormente Cartas da zona de guerra e Cara, cadê o meu país?, mas com Adoro problemas Michael Moore conseguiu mais um feito: ganhou, além de um cinéfilo ardoroso por seus próximos projetos (e que venham logo!), um leitor assíduo. Tenho inclusive pensado um adquirir suas obras que ainda não têm tradução para o português (não posso ficar na dependência da lentidão do mercado editorial brasileiro!), tamanha a minha curiosidade por suas ideias anárquicas e não menos geniais.

Com a chegada de Donald Trump ao poder e toda a controvérsia que isso está gerando no mundo, acredito que o nome de Moore ganhe força de novo. E podem acreditar: pelo que eu conheço do trabalho dele até aqui, ele está aprontando alguma coisa forte, polêmica e ácida. Podem esperar. É questão de tempo.

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