Fantasias

(O charme do carnaval)

O carnaval chegou e com ele vieram as marchinhas (esse ano teve polêmica com a galera do politicamente correto, mas não pretendo dar ibope a esse povo amargurado e infeliz que adora ditar a vida alheia!), a alegria, as multidões seguindo os blocos, os desfiles das escolas de samba na Marquês de Sapucaí e, principalmente, um fenômeno que eu considero a grande sacada do carnaval carioca: as caracterizações e fantasias.

A cada ano fico mais e mais surpreso com a inventividade dos foliões. Diferentemente dos tempos em que pierrôs e colombinas se apaixonavam pelas ruas do Rio de Janeiro (naquela época, o desfile das agremiações acontecia no meio da rua) e as meninas da minha rua se vestiam de ciganas, rumbeiras, baianas, melindrosas, coelhinhas e outras versões mais sexy, o que se vê hoje é um olhar crítico do povo sobre o que acontece no mundo.

Para quem considera o folião carioca um alienado total sobre tudo aquilo que se passa fora de suas terras, acompanhe o carnaval de rua de perto e vocês perceberão que eles estão muito mais antenados do que você imagina. Desde super-heróis da Marvel e da DC até personagens que andaram fazendo sucesso recente nos cinemas (Smurfs, Trolls, Assassin's creed, etc), críticas diretas à corrupção devastadora que assola o Brasil e até mesmo puxadas de orelha em figuras políticas mundo afora (fiquei embasbacado com a ousadia da galera que fez o muro do Trump e compareceu ao programa Encontro com Fátima Bernardes, na Rede Globo), é possível observa de tudo nesse território para lá de animado. Teve até a Beyoncé grávida, exatamente como na foto oficial que apareceu na internet.

Escolha o seu bloco preferido, perto de casa ou não, Cordão do Bola Preta, Simpatia é quase amor, Banda de Ipanema, Cordão do Boitatá, Sargento Pimenta, Bangalafumenga, Vem ni mim que eu tô facinha, Empolga às 9, Que merda é essa (não se assustem: o nome é esse mesmo e quem frequenta diz que é o máximo), Barbas, enfim, a lista é imensa e se você quiser detalhes procure o site da Sebastiana. Acreditem: tem experiências mais diversas para os públicos mais distintos.

Entre o clássico com direito à Alalaô, Bandeira branca, a cabelereira do Zezé, Índio que apito e as versões mais modernas que englobam de Beatles à sertanejo universitário, de pagode romântico à sofrência (o que gera muita discussão entre foliões mais tradicionais e mais abertos) é possível ficar no seu cantinho, apreciando a criatividade do povo brasileiro. Se puder, leve uma boa câmera! Você irá se surpreender com o resultado. Se tiver jeito para a coisa, talvez até o chamem para expor em algum lugar.

Acredito que a fantasia é o gesto mais democrático do carnaval do país nos últimos anos. Mais do que isso: é uma tomada de posição, um desabafo contra as agruras que a nação vem vivendo nos últimos anos e tal postura é muito bem vinda se levarmos em consideração o quanto a sociedade brasileira, após tantos panelaços e protestos, anda em cima do muro por conta das suas últimas deliberações governamentais que só alimentam ainda mais a descrença do povo num futuro glorioso.

Nunca fui um grande admirador do carnaval. Na verdade, faço parte daquela galera que curte mesmo a Unidos do Travesseiro e prefere acompanhar a galhofa pela televisão, mas desde os tempos em que a saudosa Rede Manchete (por que ela teve de acabar, meu Deus!) exibia os desfiles de fantasia no Hotel Glória com Clóvis Bornay eternamente hors concours eu sou fã de caracterizações. Quando o quesito em questão era originalidade, então, eu ficava fascinado com a inventividade daquelas pessoas. Hoje, isso migrou para as ruas.

É muito mais do que o homem vestir-se de mulher e as gostosonas usando cinta-liga, shortinhos curtos e minúsculos biquínis. É quase a criação de um alter-ego. Um alter-ego que dura exatos quatro dias e ao final da festa desaparecerá, muitas vezes, porque seu criador, no ano seguinte, seguirá um novo caminho, escolherá um novo personagem, dará uma nova interpretação, pois não quer virar refém da mesmice.

Como é bom saber que em meio a tantas notícias e escolhas infelizes, em meio a tanto gente enfadonha, conservadora, hipócrita, tentando impor limites à vida de qualquer maneira, ainda existem pessoas corajosas que peitam o sistema e escolhem ser felizes. Do seu jeito. Independente da opinião dos demais.

Bom carnaval a esses heróis da resistência!

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