A inacreditável máquina

(O fantástico corpo humano: uma releitura)

Quando fazia faculdade muitos colegas de classe me chamavam de maluco quando me viam lendo livros sobre psicologia e psicanálise (área que não tinha nenhuma ligação direta com a minha formação de fato). E eu sempre lhes respondia: "malucos são vocês, que não fazem a menor questão de se conhecerem como seres humanos!". Fato: o ser humano parece - pelo menos, à primeira vista - a única espécie animal que não se interessa pela sua própria história, seja a do próprio corpo, da cultura ou suas interações sociais.

Esse último final de semana achei a programação cultural dos jornais um tanto meia-boca e acabei optando por ficar mais perto de casa. Seguindo aquela lógica "por que gastar mais indo para longe, se não há nada de realmente interessante por lá?", acabei no máximo pegando o ônibus até o Norte Shopping com a única intenção de passar pelo menos uma hora dentro das livrarias (não sei se já disse isso por aqui, em meio aos meus outros artigos para o portal, mas sou um rato de livrarias, bibliotecas e sebos. E a simples menção da palavra literatura já é razão suficiente para que eu passe o tempo que for necessário em meio à prateleiras abarrotadas de livros).

E eis que para a minha surpresa descubro dentro de uma fila imensa - e divertidíssima - a possibilidade de assistir à exposicão O fantástico corpo humano, que tempos atrás eu não pude conferir no Museu Histórico Nacional, no centro (época, por sinal, em que eu estava fazendo faculdade e à procura das temíveis horas de atividades complementares!). Não titubeei e fui até a bilheteria comprar o meu ingresso para adentrar esse universo que, colegas meus que viram a mostra, rotularam de "uma experiência única".

E acreditem: valeu cada centavo e segundo do meu tempo.

O fantástico corpo humano consta de uma coleção de 12 corpos reconstituídos por um processo chamado de plastinação, que recupera o estágio putrefacto dos cadáveres, tornando-os apresentáveis para o público. Além dos corpos inteiros, a exposição ainda conta com mais de 150 órgãos soltos, nos mais diferentes estágios de decomposição ou formato. É possível se deparar com fetos de recém-nascidos, pulmões sadios e de fumantes inveterados, músculos, artérias, corações, rins, rostos cortados e muitos mais.

Não bastasse tudo isso, ainda é possível tirar suas dúvidas com profissionais de saúde disponíveis no local e aptos a responder qualquer pergunta que os visitantes tenham.

Porém, mais do que isso, o grande legado deixado pela exposição (pelo menos, para mim) é do quanto o ser humano, no final das contas, é uma máquina extraordinária e sequer se dá conta disso, tão mais interessado que está em corromper e abusar do seu semelhante do que com a sua própria vida. Nos meus tempos de adolescente Arnaldo Antunes escreveu para a banda de rock Titãs o hoje clássico O pulso. A canção trazia, em sua maior parte, nomes de doenças terríveis (toxoplasmose, peste bubônica, cisticercose e tantas outras) entre um refrão e outro mostrando a vontade do ser humano em permanecer vivo (o termo hoje cult "e o pulso ainda pulsa"). E eu sempre me perguntei se um dia me depararia com a tradução visual dessa música.

O fantástico corpo humano consegue isso e com folga. Entre corpos sadios e órgãos debilitados, a exposição de certa forma relê a espécie humana de forma muita bem cuidada e com todas as informações pertinentes cabíveis. Para alunos do ensino fundamental e médio, acredito ser um programa indispensável. Uma pena que na minha época escolar não existissem projetos como esse. Talvez hoje eu fosse um profissional de outra área, e não de comunicação social (quem sabe...).

Com tantos doentes em hospitais, a crise no sistema de saúde público, a falência de muitos planos de saúde sórdidos e tendenciosos, acho válida a tentativa de trazer à baila para a população uma espécie de diagnõstico do que fazemos com nosso próprio corpo irrefletidamente. Mais do que entretenimento, a exposição é praticamente um objeto de utilidade pública e não perde o seu quê de denúncia, em meio a tanta negligência e calhordice no setor.

Procurem. A sua visão sobre o que é ser humano vai mudar. A minha mudou. Totalmente.

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