McDonaldismo

3Recompensas

(Reflexões sobre o mundo contemporâneo - parte II)

Sinto-me empacotado. Mesmo. De verdade. Embalado a vácuo e posto numa pilha a ser vendida o mais depressa possível em algum mega-hiper-ultrasupermercado, numa dessas promoções do tipo "o produto está quase vencendo a validade, manda bala! Agora!". É assim que eu me sinto.

Eu me sinto perdido, aquela sensação de que não faço parte da minha própria vida e sim de um conjunto de ideias pré-estabelecidas, seja pela religião, seja pelos políticos calhordas de todo santo dia, seja pelos nefandos capitalistas de meia-tigela e seus impérios astronômicos.

Eu perdi minha identidade. E não me refiro ao documento, ao RG, a cédula que me define como cidadão (estatistica ou numericamente falando). Não, meus amigos. Falo da minha identidade cultural, o que me define como ímpar, único, unidivisível perante o restante da sociedade. Eu a perdi. Passei a ser apenas mais um em meio a massa. Massa essa cada dia mais acéfala, cada dia mais fora de si, cada dia mais sem referências do que quer que seja. E não é à toa que a busca pela tal de fama virou um eldorado para milhões. Todos a querem. Todos sonham com ela. Só não sabem, no final das contas, para que ela serve.

A meu ver, para nada...

O mundo tem seguido uma postura na linha "sejamos todos iguais, complementemo-nos, os diferentes sofrem demais, nunca sabem o que querem, só querem de fato é incomodar, gerar barulho. São eles que provocam as guerras mundiais, santas, cotidianas". Uau! Mundo louco esse em que a minha própria opinião ou roupa ou sexualidade ou gênero incomoda tanto a ponto de produzir uma guerra particular.

Mundo McDonald's. É só pagar e levar. Somos McDonaldizados todo santo dia. Seja na hora de escolhermos nossas roupas nas lojas de marca, seja na hora de escolhermos um filme no cinema para assistir, seja na hora de decidirmos o que assistir na tv. Somos McDonaldizados, castrados, recalcados, voltados a um comportamento comum a maioria. Um defeitinho sequer, uma vírgula errada na redação, um desejo irrefreável por entrar num simples cinema pornô e bum! uma explosão nuclear acontece ao seu redor. Essa explosão chama-se preconceito. E nunca andou tanto na moda como atualmente.

Vejo num vídeo no youtube um comercial da rede de lanchonetes McDonald's com seu mascote, o palhaço Ronald McDonald. Um palhaço. Interessante como eles enxergam a sociedade. Ronald McDonald somos nós, os trouxas, que compramos o que eles vendem como almoço. É bem a cara de uma sociedade capitalista e hipocrita saber que a empresa de "alimentação" que mais fatura no mundo tem como mascote um palhaço. Mensagem subliminar? Pelo menos, parece mais plausível e verdadeiro do que aquela antiga lenda urbana que dizia que se tocássemos os vinis da Xuxa de trás para a frente, o ouvinte escutaria a voz do... Você sabe quem.

Onde foi parar nossa coragem? Onde estão os brios dessa sociedade letárgica, que mais parece uma manada perdida, sem um vaqueiro que a toque para o lugar certo. Outro dia desses me peguei pensando sobre o que esperar do futuro e me veio à mente todos aqueles livros de ficção-científica distópica, na linha Neuromancer, de William Gibson e Fahrenheit 451, de Ray Bradbury e suas visões de mundo, para muitos, derrotista.

Eles estavam cobertos de razão.

Como denominar o futuro? Do jeito que as coisas andam, parece que tudo acabará num estalar de dedos. Parece que estamos numa espécie de criogenia pós-apocalipse, que fomos salvos para sermos estudados. Só não me perguntem exatamente com que intenção. Estamos na fase da contagem regressiva (tem quem diga que o reboot do mundo está próximo. Será?)

Chego ao fim dessa reflexão mais perdido do que comecei, mas na verdade é disso que se trata essa série. Não pretendo encontrar respostas, pois não se trata de um questionário ou de uma trivia. Não, meus caros amigos e leitores. O mundo não é uma charada. Ele pode até estar sendo vendido assim para você. Mas não é.

E talvez, para o desgosto de uma grande parcela da população mundial, nunca venha a ser. Acostumem-se. Mas não saiam de dentro do pacote. Do contrário...

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