Spray, manifesto e etc

(O grafite e o seu papel hoje)

Nos últimos meses o grafite urbano tomou conta das ruas com força novamente por conta de protestos contra a violência urbana e o abuso policial. Foram milhares de imagens desenhadas representando vítimas da guerra civil (muitos já quiseram me linchar por ter dito isso em outros canais onde escrevo, mas infelizmente é o que se passa em nossa nação) que assola nossas ruas, e levando mais uma vez à eterna discussão entre classes, assunto mais do que batido em nossa nação.

Entretanto, um outro aspecto da discussão também tomou de assalto as redes sociais, bem como a internet como um todo: a velha história de que o grafite (ou a pichação) não passam de poluição visual, portanto não merecem o mínimo destaque em nossa sociedade. Ledo engano, meus caros!

Primeiramente: pichação (escrever nomes em muros) e grafite não são a mesma coisa. E pobres daqueles que pensam o contrário! São manifestações artísticas completamente diferentes. Outra coisa: o grafite, como nós o conhecemos, é bem mais antigo do que supõe nossa vã filosofia. Ele remete ao Império romano, e tinha o mesmo caráter de denúncia, de desabafo, de crítica contra os poderosos. Ganhou força na década de 1970 no Bronx, nos EUA, em meio à comunidade negra, inicialmente como uma forma de comunicação entre gangues, e depois como contestação ao sistema político e à posturas racistas do governo vigente.

Acredito que a melhor definição para a expressão grafite é: refletir a realidade das ruas (leia-se: as classes menos favorecidas). O fato de ter sido, nos anos 70, a voz da cultura hip-hop não passa de um mero detalhe. Tanto que essa mesma voz ecoou e espraiou para o resto do mundo, tomando novas vertentes e posicionamentos (mais de acordo com as aflições e críticas de cada nação. Seus temas mais retratados são sempre a paz, o amor, a desigualdade no mundo, as diferenças e a violência urbana.(e muito por conta disso é, volta e meia, associado ao vandalismo e chamado de "apologia ao crime" por muitos segmentos e grupos de interesse da sociedade). Contudo, o mesmo raciocínio aplicado aos críticos dos rotweillers que andam sem fucinheira cabe aqui: os grafiteiros não são a essência do mal na contemporaneidade. Pelo contrário: eles são, na verdade, os grandes cronistas dos últimos dois séculos. Resta saber quando a elite entenderá isso!

Por aqui, os grafiteiros pisaram primeiramente (na mesma década que assolou os EUA) em São Paulo e foi logo ganhando sua própria cara, seja através de slogans políticos (e a periferia tem um papel fundamental nisso, por ser a mais prejudicada nos sucessivos - e catastróficos - planos de governo estadual e municipal), insultos abertos ou mesmo declarações de amor. É de lá um de nossos maiores nomes na atualidade: Eduardo Kobra. Mas não somente ele. Nos últimos anos, não só aqui como no exterior (eles têm trabalhos realizados na Espanha e na Inglaterra, dentre outros lugares do mundo) Os Gêmeos vêm se destacando, bem como Alex Senna, Nunca (pseudônimo de Francisco Rodrigues da Silva) e Binho Ribeiro, dentre outros.

Todavia, o grande nome do segmento na atualidade, não há como negar, trata-se de Bansky. E é difícil classificá-lo de outra maneira que não seja a palavra incógnita. Quem é ele de fato? Por que nunca vemos seu rosto? Onde mora? Quais os objetivos de sua arte? Lembro que ao assistir o documentário Exit through the gift shop, fiquei preplexo ao final da sessão por imaginar que o protagonista que deu origem àquela história continuou mais obscuro em minha cabeça do que antes da sessão começar.

O fato é: Bansky (que, no máximo, sabe-se que vive na Inglaterra. Ou será que já se mudou?) é não só uma lenda como também uma lenda urbana viva, dessas que conta de geração para geração, sem saber no final das contas se é real ou não. Porém, seu trabalho não só existe como incomoda o governo inglês. Procurem por seus trabalhos no google images aleatoriamente ou leiam o livro Spray e revolução. São milhares de denúncias, tirações de sarro, ironias e outros melindres, dirigidos à figuras políticas, celebridades, atletas famosos e quem mais estiver no caminho do artista (e que ele acredite que precise ser cutucado de alguma forma). Em suma: trata-se de um provocador, daqueles que fará você seguí-lo pelas ruas atrás de seus desenhos, montando um quebra-cabeça na sua mente (algo que o nosso Profeta Gentileza fez muito bem por aqui no Rio de Janeiro). Obs: procure a série chamada "Monkeys". Vocês ficarão boquiabertos!

Além de Bansky, caso tenham tempo procurem saber sobre Eric Grohe (EUA), Aryz (Espanha), Edgar Mueller (Alemanha), Smug (Escócia) e Trans (esse também da Inglaterra). Isso só para começar a entender um pouco desse universo que tem linguagem própria. Isso mesmo! Não pensem que é assim tão fácil, que é só chegar e entrar. Não, meus amigos leitores! Assim como os surfistas, skatistas, lutadores de MMA, os grafiteiros também têm seu código e suas regras. E dentro desse universo existem os bites (aqueles que imitam o estilo de um outro artista), o toy (grafiteiro iniciante), a crew (grupo de artistas que se reúne para pintar ao mesmo tempo, no mesmo espaço), e eles seguem spots (lugar onde se pratica o grafite) específicos e cada um tem a sua própria tag (assinatura).

Dito isso, faz-se necessária aqui, de minha aparte, uma defesa da classe (sempre reforçando a ideia, como vários críticos do meio, de que "pichação não é grafite". Arte marginal? Que seja! Ilegal? Não. Se será um dia, é assunto para outro artigo. Até o presente momento, não. Embora alguns de nossos políticos o combatam veementemente). Assim como a tatuagem - outra arte perseguida pelos puritanos que adoram rotular seus adeptos de vagabundos e marginais - e os quadrinhos (que no passado foram associados ao submundo. Como se o conceito de submundo oferecesse uma vertente mórbida do próprio mundo!) o grafite também é um estudo de caso sobre as relações humanas que ainda vai dar muito o que falar, e nem sempre no bom sentido.

Façam como eu: procurem conhecer seus trabalhos. Eles estão na crista da onda atualmente, já tendo exposto em muitas das maiores galerias do mundo (Basquiat com certeza abriu as portas para eles! Não conhece? Procure também! Aposto que ficarão embasbacados). Saiam da zona de conforto. Mas pelo amor de Deus, façam tudo menos aderir a essa onda conversadora - e antipática - que rege nossa sociedade nos últimos três, quatro anos. Tudo menos isso!

Já passou da hora de sermos mais do que nomes, títulos e aparência...

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