O cara dos anos 80

(R.I.P Kid Vinil)

Antônio Carlos Senefonte. Era o nome dele.

"Eu não faço a menor ideia de quem seja", você dirá imediatamente. Entretanto, se você - como eu - também viveu intensamente os anos 80, então certamente você sabe, sim, de quem eu estou falando.

Não? Tem certeza? Eu acho que sabe. Quer apostar?

Pois é... Morreu na última sexta-feira, aos 62 anos de idade, o antológico e visionário Kid Vinil. Um dos maiores expoentes do rock n' roll nacional. Uma figura tão marcante na cultura nacional que é difícil, mesmo para os mais leigos sobre o gênero musical mais barulhento da história da humanidade, dissociá-lo do movimento.

Kid Vinil saiu de Cedral, interior de São paulo, nos final dos anos 70 para tentar a vida na capital. Na terra da garoa trabalhou na Rádio Continental (1978-1979), onde ganhou o apelido que o marcou por toda a carreira. Mais do que isso: foi um dos precursores do movimento punk paulista com sua banda Verminose (que, depois, transformou-se na icônica Magazine, onde barbarizava ao lado de Lu Stopa, Trinkão Watts e Ted Gás).

A primeira vez que o vi foi se apresentando no hoje cult Cassino do Chacrinha, interpretando alguns de seus maiores sucessos como "Tic tic nervoso", "Sou boy" e "A gata comeu" (música de Caetano Veloso que foi tema da novela homônima da Rede Globo em 1985) e logo de cara o achei de uma ousadia incrível com seu cavanhaque e cabelos coloridos e mise-en-scene tresloucada. Era uma época louca, cheia de figuras andróginas e diferentes como Eduardo Dussek e Sidney Magal. Tratava-se de um período pós-ditadura e nós éramos os chamados filhos da revolução, como bem disse Renato Russo, vocalista do Legião Urbana, em "Geração coca-cola". Portanto, qualquer novidade, por mais típica que fosse, era super bem-vinda.

Contudo, iludem-se aqueles que acreditam que Kid limitou-se às rádios e aos palcos (ele também se apresentou, ao longo da carreira, com Os Heróis do Brasil e fundou anos mais tarde a Kid Vinil Xperience). Não, meus caros! Ele também foi um colunista e escritor de mão cheia. Publicou em veículos de mídia de renome como a Bizz, Estadão e Folha de São Paulo.

Na televisão, participou dos programas Boca Livre em 1987 e Som pop (entre 1989-1993) na TV Cultura, mas sua passagem mais marcante pelo audiovisual - e com certeza mais famosa - foi como VJ da MTV em 2000, onde apresentou o Lado B (cheio de bandas underground e que fugiam do mainstream da época).

Além disso. escreveu para o selo Ediouro o Almanaque do Rock, em que faz um apanhado sobre o gênero entre as décadas de 1950 e os dias de hoje. Até hoje eu considero essa obra uma guia de bolso obrigatório para fãs do gênero e, principalmente, para aqueles que querem entender o que significa ser fã de rock n' roll. Já nos últimos anos vinha se destacando com uma faixa na Rádio Rock FM (SP).

Apesar de frequentar um meio sempre repleto de brigões, tipos marrentos e cheios de atitude, Kid Vinil sempre apresentou uma face oposta a que se esperava de um "membro do clube", digamos assim. Era doce, brincalhão, adorava uma galhofa. E muito por conta de seu jeito zombeteiro e suas canções repletas de pequenas ironias aos governantes e ao sistema, era muito badalado e sempre convidado para participar dos mais variados programas de entrevistas. Daí para a discotecagem em festas foi um pulo. Isso muito antes da profissão DJ ter ganho o status que fênomeno que possui hoje, com nomes como Memê, Fat Boy Slim e David Ghetta.

No mês anterior ele já havia passado mal em um show em Conselheiro Lafayette (MG) e sido levado às pressas para o hospital. Nos últimos dia, sua saúde já mostrava sinais de oscilação frequentes e encontrava-se em coma induzido. Até que, enfim, não resistiu mais... Uma pena!

O que eu posso dizer sobre Kid Vinil, além do fato de que ele vai fazer muita falta no mercado radiofônico e televisivo de hoje, é que sem sombra de dúvidas perdemos o artista que resumia muito bem o que foram aqueles anos de paranóia pós-militarismo. Ele foi a cara da década de 80 e de todas as pessoas que um dia já peitaram qualquer tipo de sistema opressor. E ai de quem achar o contrário!

Vá com Deus, mestre! Nos encontramos em outra vida. Se Deus quiser.

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