O filme-manifesto do país

(50 anos de Terra em transe)

 

No dia 2 de maio deste ano Terra em transe, obra seminal do cinema novo dirigida por Glauber Rocha, completou 50 anos de existência. E eu me pergunto logo de cara: "ainda existe espaço no Brasil do século XXI para uma obra cinematográfica de suma importância como esta?".

Resposta (óbvia): "claro que sim. E vocês, meus amigos alienados, não fazem a menor ideia de quanto!".

Primeiramente: é preciso para todo sempre enaltecer a genialidade de Glauber Rocha, cineasta baiano que revolucionou nossa sétima arte de uma forma até hoje não mais repetida. Visionário, polêmico, animal político da melhor estirpe, Glauber sempre foi uma voz contra o sistema. Nunca se submeteu às suas vontades e, claro, pagou caro por isso. Como, aliás, todos aqueles que um dia foram grandes no que fizeram.

Sua cinematografia está repleta de obras fundamentais para entender o nosso cinema (cinema esse que se perdeu depois da retomada, por conta da cultura excessiva vigente no país em torno de bilheterias exorbitantes e recordes a serem conquistados a qualquer custo). Entre suas pérolas constam obras-primas como Deus e o diabo na terra do sol, O dragão da maldade contra o santo guerreiro e O leão de sete cabeças. Contudo, de toda a sua produção é inegável a relevância que Terra em transe tomou com o passar das décadas.

Terra em transe, mais do que um filme, é um desabafo, um tapa na cara da sociedade brasileira e, principalmente, da classe política desse país Peter Pan que se recusa a amadurecer e sair da sua condição de letargia.

O filme se passa em Eldorado, terra mítica criada por Glauber para exorcizar o Brasil das artimanhas e especulações. Aqui, mais especificamente na província de Alecrim o governador Felipe Vieira (José Lewdoy) elege-se explorando a fé de um povo massacrado pela fome e a injustiça, para depois lhes virar as costas em prol de um sistema de governo corrupto. Seu maior inimigo no circo político é o senador Porfírio Diaz (Paulo Autran), um político influente, rei das artimanhas, traidor por natureza e que se utiliza da própria imagem associada à Jesus Cristo para vender uma ideia de benevolência, de homem justo. Entre eles, um amigo em comum: Paulo Martins (Jardel Filho), jornalista do Aurora Livre, um suplemento independente da imprensa, anarquista por vocação, que por muitos anos acreditou piamente que na política feita com seriedade estava a solução para todos os problemas do povo. Equivocou-se.

E ao equivocar-se, rompe com o governo. A partir de então, sua vida entra numa derrocada que engloba bôemia, perdição, incerteza quanto ao futuro, e mais do que isso: afasta-o de sua amada, Sara (Glauce Rocha). Porém, ele é um artigo extremamente valioso para o cenário político. Paulo é um homem a quem o povo ouve, em quem o povo acredita. E por conta disso, os asseclas de Vieira não podem permitir que ele saia assim, por livre e espontânea vontade. Ele faz parte do sistema corrupto, conhece por demais o que se passa lá dentro, tem muito a comprometer caso abra a boca. E por isso, esses homens de confiança do governador querem que ele traia Porfírio, um amigo de longa data, que acredita na máxima de que amizades estão acima de quaisquer escolhas políticas.

Como pano de fundo, duas subtramas não menos ferozes: o desprezível Júlio Fuentes, "homem de televisão" e praticamente dono do maior patrimônio do país e a Splint, representação máxima do capital estrangeiro que não só elege presidentes como decide a vida comum, cotidiana do povo. Resultado: resta a Paulo o exílio, partir desta terra profana. Ele irá?

No Brasil de 2017 há muitos motivos - e muitos bobalhões - o suficiente para rotularem a obra máxima de Glauber à categoria de "manifesto comunista" ou "filme tendencioso, típico daqueles que gostam de incomodar o próximo". No Brasil de 2017 não há uma vírgula que tenha sido alterada, se levarmos em consideração a atual política nacional, do que foi dito, expresso, cuspido, escarrado em 1967. Está tudo lá. E em alguns aspectos, de forma até piorada.

Longametragem cheio de silêncios incômodos, onde os personagens dirigem seu olhar direto para a câmera nervosa, com a clara intenção de falar com o espectador, uma fala-denúncia, uma fala-esporro, no sentido de fazer o povo da época acordar. Sua sonoridade, repleta de tiros e ruídos, evoca o clima de terror da época (época que já antevia o Ato Institucional número 5) e o desconforto de uma nação perdida em meio à opressão covarde do dia-a-dia. A todo momento Glauber faz, através da voz de seu elenco poderoso, seus discursos libertários. A todo momento questiona os conceitos de amizade, liberdade e lealdade (conceitos que se romperam entre muitos que viveram aqueles tempos). A todo momento vê-se o embate entre a ideologia e a praticidade, daqueles que veem no lucro o modus operandi da vida.

O povo glauberiano se divide em dois: o real, reprimido pelo Estado, rotulado de extremista, e criticado pelo próprio povo que compra a moral da elite política, e a versão simplificada, televisionada, bonita. A do discurso submisso e em cima do muro feito pelos covardes de carteirinha.

Ao final da projeção, cansado mas em êxtase com tantas ideias revolucionárias e necessárias à tão propalada mudança que nunca ocorre em nossas terras, percebo um hiato. O país não caminhou de fato. Nem uma vírgula sequer. Eldorado continua vivo, mentindo, rugindo (ou será pedindo socorro?), decepcionado consigo mesmo, com sua inércia, sua falta de coerência secular. A expressão "...e tudo continua como sempre foi" cada dia mais nítida do que nunca.

E na garganta ácida, seca, a incômoda pergunta: "até quando?"

Glauber, gênio tropicalista, desenhou o Brasil de ontem, de hoje (de amanhã.? Quem sabe) e mudou a sétima arte e a maneira de pensar no Brasil. Pelo menos, para aqueles que entendem sua arte. Que filme esplêndido! Que país escroto!

...E que pena saber que ele nunca mais poderá fazer outro desses!!!

 

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