Compro, logo existo!

(O consumismo nosso de todo dia)

Eu já disse algumas vezes no meu grupo Baú de Notas no Facebook que há uma lista de mais de mil livros que eu ainda pretendo ler. E disse que talvez eu não viva o suficiente para ler toda a lista, porque volta e meia estou acrescentando outros títulos (logo, mil livros é só uma média não o número exato em si). Essa semana eu me propus a olhar a lista e ir atrás de um deles para ler. E esbarrei em Mentes consumistas: do consumo à compulsão por compras, de Ana Beatriz Barbosa Silva.

A princípio, fiquei temeroso e fui logo colocando o dito cujo naquela lista execrável dominada por obras de auto-ajuda. Julguei o livro antes mesmo de lê-lo, incluindo-o naquela mentalidade contemporânea muito bem-vinda no atual Brasil de "não faça isso", "não faça aquilo", "não aja dessa maneira", "mude o foco", etc etc etc (em outras palavras: o modismo dos manuais de regras como literatura expressiva).

Estava redondamente enganado. A Dra, Ana Beatriz entregou-me uma de minhas melhores leituras deste ano (e olha que foi um ano concorrido, cheio de boas ideias e pensamentos!). E mais do que isso: me fez repensar a ideia de consumo no país onde (sobre)vivo.

Primeiramente é preciso pensar: por que compramos, consumimos tanto? Vaidade? Desejo de nos mostrar como melhores do que os demais? Mais bem sucedidos? Uma paixão doentia? Tudo isso, junto e misturado? Eu terminaria uma tese de doutorado e ainda assim não conseguiria responder de forma sábia a tal questão. Mas como preciso oferecer uma resposta, mesmo que primária, fico com a seguinte: consumimos pelo prazer da posse momentânea. E digo isso porque toda compra que se faça (pelo menos na minha cabeça) tem um prazo de validade. Não conheço uma compra que dure a eternidade. Ainda mais num mundo tão globalizado e competitivo quanto este nosso.

A psiquiatra Ana Beatriz desdobra isto em múltiplos formatos e ideologias e esmiuça aspectos mais do que visíveis de nossa sociedade compulsivamente gastadora, entregando um texto que teria tudo para ser aterrador, destrutivo, mas acaba por se mostrar mais reflexivo do que a média dentro do gênero.

Em poucas páginas ela delimita a relação entre ser e ter (com destaque para o segundo verbo como predileto entre os cidadãos capitalistas); expõe as ironias, decepções e ganâncias impostas por grifes (que, na maioria das vezes, não passam de nomes diversificados em meio à tantos outros nomes), redes sociais ("o panteão dos covardes", com bem disse recentemente um intelectual de renome) e o eterno descompasso em relação ao planeta, que vive seu momento mais difícil em termos de aquecimento global; tenta discernir entre o consumo necessário (aquele voltado para nossas necessidades básicas) e o consumo descontrolado (baseado em modismo, interesse, efemeridade); exalta à condição máxima de culpados os magnânimos shopping centers (que a autora chama de "admirável mundo novo do consumo"); destaca o papel do mercado infantil, principalmente como agente falidor de muitas famílias que vão à bancarrota para atender os desejos pueris de sua prole; e, ao fim, propõe uma questão muito pertinente e preocupante do cenário atual: quanto vale a felicidade?

Na segunda parte, menos impactante porém não menos necessária para entendermos o problema, propõe tratamentos, possíveis soluções, expõe as artimanhas do neuromarketing e todas as tentativas sórdidas de transformar o cérebro humano num mero replicador de consumo, tirando do ser humano a capacidade de pensar com a sua própria cabeça.

Opiniões à parte (pois conheci duas moças que não gostaram e não recomendam o livro para ninguém, apesar de tê-las percebido como pessoas extremamente vaidosas e viciadas em marcas), o maior legado de Mentes consumistas é sua capacidade de provocar, incomodar, tirar o leitor de seu senso comum através de um tema a princípio de difícil abordagem. Em linhas gerais: somos um povo que vive a triste realidade do "somos aquilo que temos" e o resto não importa. Fruto da eterna luta de nossa sociedade contra a educação (não sou daqueles que realmente acredita que o brasileiro quer estudar; acho que o brasileiro sempre quis foi ter diploma. O que ele irá fazer dele, sabe-se lá Deus...) que há séculos assola a outrora Ilha de Vera Cruz.

Gostaria de ser mais otimista acerca do futuro de nossos cidadãos tupiniquins. Uma sociedade onde se vêem pais deixando os filhos passando fome em casa para não faltar dinheiro para o jogo de domingo no Maracanã, que já tem separado o dinheiro do ingresso para o desfile das escolas de samba do ano que vem e do Rock in Rio 2019, mas é incapaz de chegar na hora no dia da prova do ENEM (enquanto acampam do lado de fora do Morumbi para assistir Beyoncé), não é um país sério. E há um indivíduo realista em excesso dentro de mim que não consegue ver esperança nisso. Contudo, sou uma minoria. E é da natureza das minorias ser rotulada como errada ou mentirosa. Espero que eles - os que compram em excesso, por fetiche, por carência, por vaidade, por falta de qualquer outra ocupação - estejam certos.

Do contrário, não terá cartão de crédito, cheque especial ou empréstimo que nos salve do apocalipse econômico e social!!!

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