Pessoas? Máquinas? Emoções confinadas?

(Um passeio pela FILE 2018)

Essa semana tomei coragem e fui conferir a FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) no CCBB. E só pelo fato de ter sido no CCBB já me ganhou, pois considero aquele lugar - bem no início da Rua Primeiro de Março, no Centro - o melhor espaço do RJ para exposições. Ainda mais uma que pretende analisar aspectos e interfaces do futuro.

O tema da FILE deste ano é Disruptiva, que em bom português significa "a capacidade de romper ou alterar algum processo". Portanto, não poderia estar mais ansioso já que adoro transgressões e rompimentos com padrões preestabelecidos.

Entro pela porta principal do Centro Cultural (ou seja: aquela que fica encostada na Casa França-Brasil) e logo de cara sou surpreendido por uma esteira completamente diferente (ela chacoalha à medida que desfilamos por ela) e uma redoma que simula uma espécie de tornado ou ciclone, com uma cadeira em seu interior para que, aqueles propensos a arriscar, vivam a experiência ao máximo. Na sala contígua, de frente para a bilheteria, pessoas são literalmente ensacadas a vácuo num plástico enquanto são fotografadas pelos passantes (e, no primeiro momento, a imagem que vem à minha cabeça é a da mesma cena sendo exibida na série de tv Altered Carbon, da Netflix). Como primeira recepção da mostra, já me deixou pasmo.

Pergunto a um funcionário onde fica o restante da exposição e ele me manda tirar uma senha na bilheteria e dirigir-me ao segundo andar.

Senha na mão, adentro o espaço do segundo andar (que é concorrido, mesmo para um dia de semana) e vejo como primeiro vislumbre pessoas que fazem fila para andar num balanço mezzo virtual, pois é acompanhada de óculos 3D que simulam um campo florido, agradabilíssimo, uma quase memória da infância. Dividindo espaço no mesmo salão, lupas penduradas no teto e televisores desligados. Desligados? Mera ilusão! Os visitantes precisam usar as lupas para ver as imagens gravadas nos aparelhos televisores.

Na próxima sala é preciso disputar o espaço com as crianças que disputam com unhas e dentes as simulações virtuais, jogos interativos, e experiências envolvendo animação. Sobrou até para a famosa tela Jardim das delícias, de Hyeronimus Bosch, numa versão motion. O menino jogador de bolas de gude virtual me deixou encantado. E olha que você vê as bolinhas de gude rolarem pela pista! O jogador é de mentirinha, as bolinhas não.

Aliás, falando em animações, tenham muita paciência se quiserem conferir as produções disponibilizadas nas telas de LCD. As filas para pegar os fones e ouvir alguma coisa é árdua. Mas acreditem: vale a pena. Não deixam nada a dever a grandes estúdios como Disney, Ghibli ou Dreamworks.

A parte mais curiosa de toda a exposição é a rede que simula, ao mesmo tempo, sofrimento e relaxamento. Isso mesmo. O visitante deita-se na rede e começa a ser contraído e logo a seguir, relaxado. Pelo que entendi do projeto, o criador pretende que seus usuários tenham uma sensação mista de opressão e relax. Qualquer semelhança com o mundo em que vivemos, sempre entre a cruz e a espada, não é mera coincidência...

E o desfecho não poderia ser melhor (ou, digamos: mais tecnológico). Uma sala quase totalmente escura replica a um sistema integrado, cheio de circuitos e microchips. É quase como se os visitantes da mostra adentrarem o hardware de seus computadores e tablets. Senti-me por um breve instante como o personagem Kevin Flynn, vivido pelo ator Jeff Bridges, no hoje cult Tron - uma odisseia eletrônica.

Depois de tantas experiências inusitadas, pergunto-me: o que esperar do futuro após essa viagem oferecida pela FILE?

A primeira sensação que tive, com certeza, foi a de que a palavra confinamento estará muito presente no futuro remoto. E é facilmente entendível o porquê, tendo em vista a dificuldade cada vez mais gritante, de se viver em sociedade, em meio a tantas tecnologias e ao mesmo tempo tanta falta de diálogo.

Segundo: um sentimento de que nada mais será o que parece ser à primeira vez. Lembro-me de um verso do poeta e músico Arnaldo Antunes no auge da banda Titãs, em que dizia "não é o que não pode ser que não é o que não pode ser que não é que não é o que não pode ser que não é" repetido exaustivamente e que ficou famoso por aparecer durante um trecho da canção Kátia Flávia, do cantor Fausto Fawcett, quintessência daqueles loucos anos 1980. Ele, Arnaldo, nunca esteve tão certo. E digo mais: profetizou as intenções de quem tenta interpretar (ou seria melhor a expressão adivinhar?) o futuro, que está logo ali na esquina mostrando as garras.

E finalmente: a nítida impressão de que tudo, daqui pra frente, será mais efêmero do que nunca. Então, não se surpreendam com o crescimento do antissocialismo e da competição por tudo no mundo. Não tem muito tempo li um livro em que um intelectual - mais especificamente, um antropólogo - defendia a ideia de que o futuro será ainda mais jogo, mais simulação, mais sensação de fraude do que o que está em voga hoje.

Triste? Não. Apenas um alerta. Talvez esse tenha sido o maior legado deixado pela FILE 2018: precisamos entender o que está por vir como uma alerta. O que fazer com ele? Aí depende de nós. Única e exclusivamente de nós.

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